COMENTÁRIO DO MÉDICO ESCRITOR JOSÉ LUIZ MÉLO SOBRE O TEXTO: VELOCIDADE, SOLIDÃO E POESIA

01/08/2015 09:02

Meu caro amigo.

            Como sempre, muito bom, muito transparente e claro o seu texto. Resposta de quem foi atingido por um tiro, não daqueles que atravessa, mas daqueles que estampam na cara um estupor, a surpresa do impacto, do tapa imaterial que muda a paisagem, estraçalha a imagem, destroca sua cor.

             Veja você, atravessar é fácil, no máximo um trajeto de sangue que o rumor da bala abafa, depois, do outro lado, um coágulo ou outra marca que o lodo apaga. Algum tempo nem vestígio fica, a roupa lavada, a ferida fechada, vida em frente para frente sempre, nenhum presságio marca a alma no tiro que passa.

            Mas o impacto que não atravessa a imagem fica preso como um retrato balançando na sala, para sempre, sem uma silhueta para demarcar o contato, um retalho na carne, apenas, e isto é tudo, a certeza de sua existência que não abandona a cena, − a presença do seu criador.

            Então, somos todos, o quem criou e outros como nós que sentimos o estupor da criação, seu choque no corpo, como um benigno relâmpago que ficou no guarda roupa onde ficam alojadas nossas súbitas emoções.

            Creio que você fez muito bem em escolher um verso de Alberto para discorrer sobre ele. Você, quando nos encontramos no Delta Café já me tinha falado sobre o mesmo, tocado pelo seu mistério, desperto na sua mensagem que açoita a alma com rigor.

             “a cem quilômetros por hora/solto a direção do automóvel/para escrever alguma coisa/mais urgente que minha vida”.

            Fez bem, você, diverso do que se costuma ver, escolher um verso, quando ele em si um poema encerra, por dentro, seu complexo. No chão, você caminhou, por todos os cantos, se satisfazendo com a emoção mais simples e pura que lhe trouxe o verso, sem contorcionismos inúteis para mostrar uma insossa erudição. (Lembra-se da ilação que me fez a ensaísta ao me descobrir na escolha que fiz do poema de Alberto para publicação na nossa revista, do médico que sou pela palavra “curativo” que consta do poema.

            Você capta a espetacular opção que Alberto faz em sua vida, deixa bem clara, a escolha pela criação, mais vale que a vida, a cem quilômetros por hora, escrever, colar na alma, não deixar escorregar entre os dedos a magia que se esvai fácil, escorregadia, guardá-la para si, com avareza, presa entre os dedos, trancada na mão.

            Depois você discorre com grande propriedade sobre este momento que sacraliza o homem, o transcende para o caos, o momento da criação.

            Todas as citações que você fez foram adequadas, naturais, se ajustaram ao texto sem esforço, corpos cobertos por igual num mesmo cobertor.

            Assim foi ao citar “NASCE O POEMA”, de Ferreira Gullar: “e a poesia irrompe/donde menos se espera/às vezes/cheirando a flor/às vezes/desatada no olor/da fruta podre/que no podre se abisma”.

            Muito feliz ao lembrar o Belchior, a beleza do seu verso, como Alberto, tropeçando em situações aparentemente prosaicas da vida “dentro do carro/ sobre o trevo /a cem por hora, ó meu amor/só tens agora os carinhos do motor" (QUE VERSO MAGISTRAL, “SÓ TENS AGORA OS CARINHOS DO MOTOR”) mostrando a beleza que se mostra no seu interior, claro, do motor.

            Ainda, quando lembra o RC, nas suas cavalgadas onde o amor não é freio para as distâncias que não acabam na madrugada.

            Isto é poesia, da mais pura, todos nós a sentimos, sem explicações nem impedimentos.

            Parabéns meu poeta. Quem sabe, qualquer dia, poderemos conversar sobre este verso do Alberto, quem sabe, paradoxal, suscitar-nos novos vexames, que não vimos até então mas que estão ali encobertos para serem descobertos.

Seu amigo, José Luiz Mélo

 

          

 

 


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